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aquele abraço

quinta-feira, 3 de novembro de 2011



porto alegre, 30 de outubro do ano da graça de 2011

quando ler esta carta,
se é que,
queria que soubesse,
doeu, doeu muito, doeu além da conta, e até hoje ecoa do eu até o outro, aquele meu igual em dor
ouve
lancinante grito
tu fez que não ouviu, ouvido mouco
não importam as circunstâncias e os papéis desempenhados, deflagrados na má condução dos saberes, pura incompetência dos desesperados por glória, fama e por aquilo que nos torna, humanos, demasiadas bestas
é traição, sem mais
agora é eu e tu
um lendo, o outro escrevendo
unidos na mesma desgraça, no mesmo impasse
eu sofri, ainda sofro
sofre tu
ouve, a diferença é o abismo que nos separa
em ti, sentir é ameno
em mim, deveras grave
eu da tribo, ritual
tu da trupe, ingênuo a garantir a sobrevivência dos comensais e parasitas
porém é a tua sombra, foi encolhida
será tu a ventríloqua sanha dos que ainda dormem?
o que tu é, afinal?
além de mim e daquele que tenta compreender
jamais haverá resposta
eu te digo:
ouve, o pior barulho vem de dentro
consciência...
quando se acusa o golpe, o coração vomita o cinismo dos aflitos e desesperados sem chão...
e parado na esquina alguém ficou... a observar com olhar de peixe morto o canto de vindita dos desafetos... o mais novo dos malandros dançou...
e cheio de chalaça e gingado, balançou sua ópera trágica no relvado dos imortais...
sim, não se vomita no manto com o qual fomos cobertos quando nada éramos
abençoado é
mas pálido luar se tornou
hoje, uivo teu esquecimento
ouve
alma lavada,
vai, segue tua senda, que eu sigo a minha
já o teu caminho de volta, será árduo...
hahahahaha!
nunca se cumprirá! pelo simples fato de que se cumprir, não será como antes
eis a promessa de quem realmente se entrega...
corpo coração
tens um novo amor e já demonstrasse isso, assim como o fizesse num outro tempo a mim, a nós
palavras, palavras, palavras
saiba tu que paixões não são propriedade de ninguém
nem de quem se arroga detentor de todos os méritos, não os tendo
folclóricos e falastrões, nada mais
caricaturas sem façanhas, a engrandecer a si mesmas
bocejo
aves de rapina a rastejar deselegâncias
há um se merecer entre ambos, recíproco
teu lugar é o limbo
ontem celebrei a ti e a todos que confessaram em vida o amor eterno
aquele abraço
houve...

5 comentários:

Flah Queiroz disse...

Um dia aprendo a usar seu jogo de palavras. Um dia.

marcela disse...

Que espetáculo!
Vc falou de diferenças, términos, dores, amor, desencontro, expôs sentimentos, mágoas, tudo isso em um balanço só...sem perder um segundo o fio dessa dança linda com as palavras.
Parabéns!

Ana SS disse...

As suas palavras dançam uma coreografia ímpar.

E eu fico na plateia, querendo dar pitaco e não conseguindo...

Edu Lazaro disse...

tá aí, pra digerir com o que deposita dentro dos olhos à pessoa de quem ler...

Tatiana Kielberman disse...

Ah, querido Denison... Suas palavras imprimem saudade e nostalgia em nossos corações!

Impossível ler você sem viajar longe, longe...

Perfeição define o seu texto!!

Beijo carinhoso!