porto alegre, 30 de outubro do ano da graça de 2011
quando ler esta carta,
se é que,
queria que soubesse,
doeu, doeu muito, doeu além da conta, e até hoje ecoa do eu até o outro, aquele meu igual em dor
ouve
lancinante grito
tu fez que não ouviu, ouvido mouco
não importam as circunstâncias e os papéis desempenhados, deflagrados na má condução dos saberes, pura incompetência dos desesperados por glória, fama e por aquilo que nos torna, humanos, demasiadas bestas
é traição, sem mais
agora é eu e tu
um lendo, o outro escrevendo
unidos na mesma desgraça, no mesmo impasse
eu sofri, ainda sofro
sofre tu
ouve, a diferença é o abismo que nos separa
em ti, sentir é ameno
em mim, deveras grave
eu da tribo, ritual
tu da trupe, ingênuo a garantir a sobrevivência dos comensais e parasitas
porém é a tua sombra, foi encolhida
será tu a ventríloqua sanha dos que ainda dormem?
o que tu é, afinal?
além de mim e daquele que tenta compreender
jamais haverá resposta
eu te digo:
ouve, o pior barulho vem de dentro
consciência...
quando se acusa o golpe, o coração vomita o cinismo dos aflitos e desesperados sem chão...
e parado na esquina alguém ficou... a observar com olhar de peixe morto o canto de vindita dos desafetos... o mais novo dos malandros dançou...
e cheio de chalaça e gingado, balançou sua ópera trágica no relvado dos imortais...
sim, não se vomita no manto com o qual fomos cobertos quando nada éramos
abençoado é
mas pálido luar se tornou
hoje, uivo teu esquecimento
ouve
alma lavada,
vai, segue tua senda, que eu sigo a minha
já o teu caminho de volta, será árduo...
hahahahaha!
nunca se cumprirá! pelo simples fato de que se cumprir, não será como antes
eis a promessa de quem realmente se entrega...
corpo coração
tens um novo amor e já demonstrasse isso, assim como o fizesse num outro tempo a mim, a nós
palavras, palavras, palavras
saiba tu que paixões não são propriedade de ninguém
nem de quem se arroga detentor de todos os méritos, não os tendo
folclóricos e falastrões, nada mais
caricaturas sem façanhas, a engrandecer a si mesmas
bocejo
aves de rapina a rastejar deselegâncias
há um se merecer entre ambos, recíproco
teu lugar é o limbo
ontem celebrei a ti e a todos que confessaram em vida o amor eterno
aquele abraço
houve...

5 comentários:
Um dia aprendo a usar seu jogo de palavras. Um dia.
Que espetáculo!
Vc falou de diferenças, términos, dores, amor, desencontro, expôs sentimentos, mágoas, tudo isso em um balanço só...sem perder um segundo o fio dessa dança linda com as palavras.
Parabéns!
As suas palavras dançam uma coreografia ímpar.
E eu fico na plateia, querendo dar pitaco e não conseguindo...
tá aí, pra digerir com o que deposita dentro dos olhos à pessoa de quem ler...
Ah, querido Denison... Suas palavras imprimem saudade e nostalgia em nossos corações!
Impossível ler você sem viajar longe, longe...
Perfeição define o seu texto!!
Beijo carinhoso!
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