gustav klimt - árvore da vida
este hoje fatídico, o último dos dias todos.
a sala escura testemunha um vulto. ouve-se um intermitente ruído de agulha a riscar um vinil antigo. é tudo o que se sabe.
fim...
ontem, ainda deu para sentir o gosto, o odor, a pele. aquele sexo rugindo por dentro a tremura da carne. mas algo se anuncia por baixo dos corpos. aquele premeditado infortúnio, um cansaço da mesmice, o auge de uma doença imaginária. o paroxismo verbalizado nos silêncios depois do gozo. o descuido e a distração pregam peças. e a existência do que há, se esvai.
é tudo tão...
anteontem assistimos meia noite em paris, de woody allen. concordamos sobre o filme. jantamos à luz de velas e bebemos um tinto carménère safra 2010, coincidentemente o ano que nos conhecemos. trocamos algumas carícias e palavras evasivas. tudo muito normal.
os dias requerem paciência monástica para sobreviver à noite...
na semana anterior saímos para dançar. fiquei num canto bebendo, enquanto ela se esbalda na pista. reclamei de exaustão . mentira!, gritou na minha cara. e desfiou impropérios não publicáveis (se isso fosse na tv, seriam tantos “pis” que encheriam umas cinco página, no mínimo). discutimos. fomos embora. da danceteria até em casa ouvi tanta coisa que nem quero lembrar.
só lembrei da minha mãe, coitada. falar nisso, tenho que ligar pra ela...
no dia 26 de maio de 2011 casamos. apaixonados e prometendo amor eterno. festa linda. dançamos até o dia raiar. terminamos ao som de moon river, na voz de louis armstrong.
transbordei lágrimas...
os dias, as semanas e os meses que antecederam o casamento foi uma loucura só. vivemos inseparáveis. viramos as noites conversando sobre música, filmes, política, futebol e até de livros! discorremos teses sobre os mais improváveis assuntos. nós inventados pelas horas a fio. somos incansáveis. fazemos planos, projetos, traçamos caminhos, nosso futuro será radiante. rimos muito disso.
um pacto para entreter o destino...
nos formamos no mesmo ano, na risonha graça de 2010. nunca trocamos palavra, só olhares.
oi!
oi!
te formou em quê?
psicologia, e tu?
literatura, quero ser escritor.
bah!, que tri.
é.
o que que tu acha do macedonio fernández?
gênio! tu já leu ele?
claro. capaz que não. o borges curtia ele.
é mesmo. foi o cara, o macedonio.
e dos novos escritores, de quem tu gosta?
nossa, vários. já leu lugar, do reni adriano?
não.
te empresto.
me empresta mesmo.
baita livro.
e poesia? já leu roberto piva?
tu quer beber alguma coisa?
ao fundo, ouço cazuza...

7 comentários:
E todos os amores não são assim?
Um texto perfeito, bom de ler, entremeado de vida e tecido de sentimentos.
Beijokas.
Me lembrou um velho texto que atribuem a Chaplin. Tem um trecho que diz:
'Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.'
[Essa semana, te odeio vezes dez!]
Queria tanto acreditar que o amor tem uma remota chance de não acabar assim...
Di
Nossa, adorei esta "desordem" ordenada dos fatos, ficou o máximo!!! O começo sendo o fim, o fim sendo um recomeço... fez lembrar o filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" tão bom quanto teu texto!
Beijos n'alma!
E é neste ciclo que estamos sempre querendo amar e ser amando. Felizmente crescemos com os relacionamentos. Muito bom!
Foi numa esquina, num esbarrão que o amor me encontrou,
lá estava, formosa, bela, sedenta de vida...olhares se cruzaram
bocas se uniram e a almas dançaram felizes...
Foi numa esquina, num esbarrão que o amor nos desencontrou,
la estava, rotina, cansaço, falta de alegria, buscávamos vida em outras
companhias, e cada um segui seu rumo,,ficou la, apenas a esquina...
Foi numa esquina...
Gilson Costa
gosto de textos crus.
eu preciso de tanto banho maria...
invejo-te.
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