.

.

átomos elementares de uma complexidade quântica

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

gustav klimt - adão e eva


não sei bem explicar, mas tudo começou quando os olhos disseram
Olha!
e eu olhei, claro, apesar da penumbra. manja penumbra? festa estranha, estranhíssima. foi então que o cérebro iniciou o trabalho de maquinação. imaginou, fantasiou, devaneou e tudo o mais que o maquiavélico é capaz. ele disse
Nossa! bonita a guria, hein?!, molengão
nem respondi pra ele
foi então que os olhos dela também disseram
Olha!
e ela olhou. de pronto, o pensante dela disse
Até que dá pro gasto. Meio baixinho, mas tudo bem, é bonitinho

daí os dois cérebros começaram a tagarelar em altos brados de intelectualidade hormonal. uma overdose de substâncias neurotransmissoras começou a agir. sem falar na bebida. aí os corpos disseram ao mesmo tempo
Opa! Opa!.

aproximaram-se como se idéia própria tivessem. conversaram bem juntos. a música
Tum-Tum-Tum
estava além da altura permitida para um bate-papo que as vozes pudessem suportar. trocaram confissões. mentiram um pouco. falaram mal dos convidados. e beberam, e como beberam, a birita vinha a rodo. até que o fígado dele, quase hepático, disse
Ai! Ai! Caramba, os rins são dois, eu sou só um. Não tô aguentando esta cornucópia etílica

porém, algo acontecia naqueles corpos, além da bebedeira. ambos se assustaram. começaram a suar frio, o coração acelerou, um surto de adrenalina, noradrenalina, feniletilamina, dopamina, oxitocina,  serotonina, endorfinas e quejandos. um negócio muito louco. e os corpos uníssonos gritaram
Que gostoso!

buenas, os dois já hipnotizados com a saraivada de sensações, coisa maluca, não se seguraram e iniciou-se... como diria isso...
Uma espécie de dança do acasalamento, falou a ancestralidade primitiva
isso!, verdade. o ritual antropológico do encontro

agarraram-se. beijaram-se. acariciaram-se... e se mandaram daquela festa
Por sinal muita chata, suspiraram as pernas, já de saco cheio. Até que enfim, ufa! ufa!

foram para a casa dela de táxi. meu bolso disse
Tá sem grana, camarada!
São 23 reais e 34 centavos, o motorista informou
Tem troco pra cem, eu esperto perguntei
ela disse Deixa que eu pago
Legal, depois te dou o dinheiro, falei eu macho-latino-ocidental

subimos o elevador quase pelados. entramos no apartamento aos tropeços. na sala tiramos o resto da roupa. ela ofegante úmida. eu já ereto pronto. foi então no sofá mesmo que começamos...

lá fora, na indiferença das ruas o movimento cotidiano das madrugadas insones. os carros, os prédios a ocultar anônimos sentires, os luminosos, telhados vigiados pela lua que começa a desaparecer em meio a nuvens ligeiras. o vento varre esquinas, lambe as artérias da urbe lasciva numa lubricidade confusa. um mendigo suspende sua busca de algo para comer e descansar os andrajos. olha para o céu e pragueja uma obscenidade. toma os primeiros goles de chuva. na janela daquela sala onde dois corpos de fundem, uma miríade de olhos líquidos bate curiosa. testemunhas veladas da química voraz, mais ninguém. a literatura tem o poder de barrar a intromissão atrevida da mixoscopia. é pura transgressão, contrária às imagens fundadoras de ídolos e heróis, iconoclasta vingança, sarcasmo de quem escreve. em algum lugar alguém maneja as palavras e pensa A literatura tem de recriar a si mesma para que não padeça de tédio e monotonia. ele está condoído de ausências de si, a flertar com a solidão e a personificar uma saudade distante. diz baixinho Como é bela a imaginação transformadora, sem os intérpretes do óbvio. abre uma gaveta e retira um caderno de anotações, uma foto, a lembrança do sorriso que longe demora a voltar. olha para fora e vê as avenidas alagadas, os semáforos em amarelo piscante, o aluvião em redemoinho escorrendo aos bueiros, ouve a algazarra melodiosa das ramagens, o silêncio dos pássaros na impossibilidade segura do voo... Como são tolos os apegos a minúcias, os apequenamentos diante da curta existência... Como são obscuros e simulados os domínios do discurso sobre o amor, reflete. há tanta história incompleta, tantas vidas diminuídas, tanta gente querendo e querendo e querendo ...

... a poesia em transe dos corações...

“Rapidinho ele, vou ter que ensinar alguns segredos... Mas é carinhoso, culto e tem bom humor... Será que me apaixonei?!

Foi bom pra você?”

6 comentários:

Ana SS disse...

Já li muita coisa sua, genial aqui. Mas atrevo-me a dizer que esse foi o melhor!

PQP.

...

...

...

Não sei se você escreve as palavras ou se elas é que escrevem a sua existência. Duvidei da tua existência agora, Denison.

"A literatura tem de recriar a si mesma para que não padeça de tédio e monotonia. "

Você fez isso do modo mais astuto e belo o possível.

Hunf.

Flah Queiroz disse...

'Foi ótimo pra mim!'

Como disse num e-mail: é uma delícia ler você, especialmente nas últimas semanas, onde seus textos ganharam bom humor.

Felipe Carriço disse...

Fodástico!

Achei fenomenal o destrinchamento dos fatos e a simples declaração de que não vale a pena se apegar aos detalhes.

É a gestalt do corpo em movimento, e nada mais!

rosa maria braga disse...

É verdade, trouxas adoram "a imaginação transformadora" , trouxas não gostam de interpretar o óbvio. Sou good,sou trouxa. Vamos mais uma??

Carina B. disse...

"tanta gente querendo e querendo e querendo ..."

E há algo que nos mova (e assuste) mais do que querer?

Outro texto genial, já tá repetitivo falar isso, mas a verdade não cansa de ser dita. :)

Dama Amanhecer disse...

Esse texto realmente tá maravilhoso. *-*