apesar de toda bebida consumida, da luz inquieta e da fumaça do lugar, notaram-se. coisas do acaso, poderia ser dito. mas estavam lá. ambos denunciando uma vontade tácita. apenas pulsando por dentro, indecorosa, fascinante, violenta.
fade in. olhos nos olhos. azul com castanho esverdeado. pausa.
dois sorrisos. lentos. tímidos. lancinantes. aquele dorso nu zombando de todas as fantasias. ah!, pensaram juntos, quero te comer! agora! a música um tanto alta, mas sabiam que se ouviam, telepáticos. a dança acabou. travelling nervoso.
aproximam-se com a desculpa do banheiro. esbarram-se. iluminação estroboscópica. uma carícia... um dizer... as mãos... o beijo. sentam-se. close. combinam o encontro. depois do trabalho. zoom no bilhete em cima da mesa. o endereço. corte.
no apartamento. as peças pelo chão. quebra-cabeça desmontado. nus. transam. gemidos, arrepios, suores. luxúria. volúpia. chuva batendo na janela. existência tocando os corpos. plongê. gozo a dois de um uno instante. uma extenuação gostosa. depois do cigarro acesso e consumido prazerosamente, adormecem de conchinha.
uma semana depois. moram juntos.
no mês seguinte. casam.
nos primeiros meses. sexo. flores. poemas. jantares. vinho. amor.
após o primeiro ano: flashbacks.
panorâmica de ponto de vista. a cidade em movimento rápido. pessoas. avenidas. carros. prédios. o dia. a tarde. a noite. a solidão da multidão. a saudade discreta. as lágrimas que rolam. os rostos que se apagam. corte.
uma sombra perambula pela parede ao som do abajur “cor de carne, um lençol azul, cortinas de seda...”.
a chave na porta faz o barulho de sempre. madrugada alta. os olhares se tocam mais uma vez.
uma voz indecifrável e embriagada pergunta: - tu voltou àquele lugar?
lá fora os neons desaparecem, com as primeiras luzes de um agitado amanhecer...
sobe a música. “... o mundo é pequeno demais pra nós dois. em toda cama que eu durmo só dá você, só dá você, só dá você, iê, iê, iê, iê”...
anotação: final está clichê demais. trocar a música, uma do chico (pesquisar). a cena do abajur “cor de carne” está péssima (reescrever). o correto é você voltou. quem sabe: tu voltaste (ver). “adormecem de conchinha”, que porra é essa?, muito brega (cortar)...
5 comentários:
Favor ler o comentário que deixei no texto do Sal e pegar para si os mesmos elogios. Grata.
PS: Adoro clichês!
Tranbordando em estilo.
Acho linda a sua falta de uso de letras maiúsculas, toda enfeitada com pontos finais.
delícia de leitura, que parece ser feita dentro do seu pensamento...
E é de clichês que se faz uma vida boa...rs
Cada semana que te leio penso: esse é o melhor texto do Denison que já li. Aí dura até a semana seguinte, quando você escreve algo ainda melhor. E sabe o que mais gosto? Teus textos pela forma e pelo que dizem, me surpreendem sempre. Qualidade rara.
E eu, como a Flah e a Ana tb adoro um clichê. E a breguice é inexorável ao amor.;)
Fantástico!
É um texto classe A de um roteiro para filme B.
hahahahahahahahhahaha Muito bom! Principalmente a crítica no final. Espirituoso. Mestre!
abraços,
@paraquenomes
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